À margem da... Adolescência


Os adolescentes estão à margem, por outras palavras, sim, eles são excluídos!
É verdade que são chatos e, às vezes, insuportáveis. Entretanto, só ocupam o papel que, como sociedade, lhes reservamos.
Somos responsáveis pela criação de tais "monstros". Os adolescentes vivem num vácuo, num espaço entre a infância e a fase adulta, um lugar que ainda não é, nem foi, definido. Apenas diz-se que é a adolescência. Uma fase de dúvidas, incertezas, aborrecimentos, revolta, procura da identidade. Já não são os nossos bebés, nem são adultos o suficiente para conversarmos de igual para igual. 
Qual o papel que lhes cabe? A sociedade definiu: não serem responsáveis por nada e só causarem transtornos e problemas.
Para algumas coisas, dizemos-lhes que ainda são crianças, para outras, argumentamos que já são adultos o suficiente. Uma confusão, não é? Mas certamente, mais confuso para eles. Estão excluídos e não possuem “função” social. 
Sinceramente, não gosto desta visão pessimista da adolescência. Embora seja muito próxima da realidade, uma realidade que nós construímos. Não foram as "hormonas" que “disseram” como os adolescentes seriam, mas sim, nós. A forma com que olhamos para eles. É uma visão social. Correspondida sim, porque os “ensinamos” a serem assim. 
Acontece que, ao fazermos isto, também negamos aos adolescentes o direito de serem pessoas. Afinal, olhamos para eles e falamos com eles como se nada soubessem. Claro, eles também olham para nós, adultos, e consideram-nos uns "cotas", ignorantes e muito ultrapassados. Confesso que, com alguma razão. 
Há uns anos atrás em consulta com uma adolescente, lembro-me de que ela reclamava que não tinha o direito de reclamar. Que não era ouvida por ser uma adolescente e trazia implícito o discurso estabelecido: "Adolescente, não fales! porque tu não sabes nada!" 
É verdade que são inexperientes. Também é verdade que, na tentativa de construírem o próprio espaço, tornam-se ousados, mal humorados e até agressivos. Entretanto, eles têm algo a dizer. E por vezes sabem muito. 
Acontece que os silenciamos, ou negamos o direito de falarem, porque não queremos ser confrontados. Sem pudores ou censura, os adolescentes põem em causa os nossos valores. Em especial, aqueles que não fazem sentido. Eles tocam-nos nas feridas. Mostram-nos as nossas contradições. Obrigam-nos a tirar a máscara e, ninguém gosta disso. Não queremos admitir que as nossas regras nem sempre são perfeitas e, muito menos, que temos fragilidades. 
Sei o quanto pode ser difícil ser pai de um adolescente. É preciso ter disposição e muita paciência para manter as coisas sob controle. Porém, com algum bom senso, acreditem que, todas as vezes que um pai debate um tema com um filho adolescente, vai aprender um pouco mais. É um desafio ter que rever valores e, principalmente aprender que nunca sabemos tudo. E mais, tenho a certeza que o conhecimento só se sustenta quando é actualizado. Do contrário, tornamo-nos sim dinossauros.

2 comentários:

  1. Adorei esta sua perspectiva da adolescência.
    Eu, enquanto adolescente, nunca, ou quase nunca, me senti à parte, pelo menos no seio familiar.Felizmente os meus pais sempre nos respeitaram como seres individuais e com opinião, contudo acho que essa fase de incertezas e procura de identidade comecei a vivê-la, pelo menos conscientemente, na fase adulta.
    Um pouco estranho eu sei :)
    Beijinhos

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    1. Obrigada pela partilha Edien ;)
      Um grande beijinho

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