Sobre pedofilia... o amor incondicional, o contacto e a ajuda



Sou psicóloga clínica e a clínica infantil sempre foi a minha paixão. Saber que eu poderia fazer a diferença na construção de uma pessoa. Ajudar aquela criança, aquela mãe ou aquele pai, ajudar aquela família sempre me deixou feliz e era esse o rumo que queria seguir. Mesmo com todas as dificuldades adjacentes. Para além de toda a formação, tenho uma pós-graduação em maus tratos na criança e no adolescente, violência sexual e psicopatologia e acompanhei casos de crianças vítimas de abusos. O mundo é muito injusto e houve alturas em que cheguei a perder a esperança na humanidade. Nos primeiros tempos, ou nos primeiros casos, eu sentia-me pequenina e completamente impotente. Tinha o estômago colado às costas, um nó na garganta e a ira de quem quer esfolar pedra com as próprias unhas. Questionava-me se havia de gritar, fugir, chorar (e chorei bastantes vezes) ou fazer justiça. Claro que nada disto iria fazer parar o que tanto desejava. Que as crianças não sofressem mais, seja por que motivo for. Resumi-me ao meu eu e ao que tinha aprendido e dava o meu melhor e tentava (muito), mesmo que não compreendesse, ajudar. Lembro-me especialmente de uma menina no seus 6/7 anos que foi vítima de abusos por vários membros da família durante muito tempo, e lembro-me de sonhar com ela (o que às vezes ainda acontece). Para além de todo um rol de atrocidades que ouvi e engoli em seco, daquele engolir que nos arranha a garganta até às entranhas, o que me deixou completamente incrédula e fez com que todo o meu corpo gelasse, o silêncio e o vazio tomasse conta de mim e de tudo  à minha volta com excepção daquela menina sofrida, foi a capacidade de amar daquela criança. A ingenuidade daquele frágil ser e a não compreensão de um sofrimento capaz de o ter para si como um acto de amor. Pois foi somente a única forma de "amar" que ela conhecera. E eu, eu fiquei impávida.   Prendi em mim as lágrimas que teimavam em cair (não sei como, mas consegui), e a partir daquele momento, entendi que não somos nós que amamos incondicionalmente os nossos filhos.  São eles!  São eles que nos amam incondicionalmente com todas as suas forças, e só desistem quando a infância se desvanece num último grito. Quando deixam realmente ser crianças. 

Tenho dois filhos que amo com todas as minhas forças e sei/sinto que eles me amam. Tenho medo, muito medo, como a maioria dos pais que os vê crescer num mundo muitas vezes doente e sem sentido de justiça, mas não posso ficar presa a este tipo de angústias. Não é bom nem para mim, nem para eles. Quero ser feliz e quero, acima de tudo, que eles sejam felizes. Não os posso fechar numa bolha, essa não é a realidade! 

Nestes últimos dias gerou-se um pânico por causa do perfil de um alegado pedófilo e achei que seria bom deixar aqui alguns posts sobre o assunto. Vão ser posts sobre perfil de um pedófilo, como prevenir que os nossos pequenos sejam vítimas e o que podemos fazer, sinais "enviados" pelas crianças vítimas de abuso e o que o fazer nessas situações. Muito em breve, muito em breve!

8 comentários:

  1. Como sempre brilhante, inspirador e acima de tudo calmante!
    Bjs

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  2. Óptimo, Olga!
    Obrigada por isto..E pelo texto tão bonito e cheio.

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  3. Excelente Olga, excelente. Toda a informação sobre este assunto é sempre bem-vinda.
    Infelizmente é este o mundo em que vivemos, cada vez mais cruel, cada vez mais assustador. Mas como dizes e bem, não os podemos fechar numa bolha, isso não é viver. Dessa forma estaríamos a condenar a nossa (curta) existência ao medo, à infelicidade, ao atrofio.
    Eu costumo dizer que quem tem um mau coração vê maldade em tudo. Como é possível haver gente assim... fico a ferver com estas coisas...

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  4. Obrigada pela partilha enquanto mãe e enquanto profissional.
    Um grande beijinho

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  5. Fabuloso!!!
    Gosto tanto deste teu cantinho, aprendo tanto!
    Obrigada pela partilha ;)

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  6. Obrigada a todas pelas palavras! Beijinhos mil *****

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  7. Eu própria já fui uma tentativa de vítima de pedofilia por um amigo do meu avô mas calhou-me a sorte grande e consegui escapar-me... Enojam-me pessoas assim, capazes de pensar em abusar de uma criança, adolescente, adulto ou idoso! NOJO!

    http://portugalonabudget.blogspot.pt/

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  8. Obrigada pelas palavras Olga, emocionei-me com este texto, nem sei como vai ser com os próximos! Quando somos mães ou pais... ganhamos uma sensibilidade extra... e tudo isto é arrepiante!!

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