"MÃE, O QUE É A MORTE?" - FALAR SOBRE A MORTE COM AS CRIANÇAS

Sabemos que falar sobre a morte não é fácil, muito menos quando temos que abordá-lo com uma criança e embora seja a única certeza que temos na vida, pois o ciclo natural é nascer, crescer e morrer, este assunto pode tornar-se bastante desconfortável quanto sentimos que não temos todas as respostas. Em especial as crianças mais pequenas que esperam que os pais saibam tudo. Na verdade, o que acontece é que este é um assunto com o qual mesmo os adultos têm dificuldade em lidar, no entanto, a forma de tratar a morte deve ser encarada com naturalidade com o fim de ensinar os mais pequenos a não terem medo, preconceitos ou fantasias irreais sobre ela.


imagem via Pinterest

Compreendem as crianças o conceito de morte? 
É útil perceber de que forma é que a criança vai absorvendo o conceito da morte em função da idade e isso pode igualmente ajudar na forma como devemos abordar este assunto.

Entre os 3 e os 5 anos - Ainda não compreendem o conceito de “eternidade” e não entendem que o animal de estimação ou familiar não voltará para brincar e, por muito que custe aos pais, é normal perguntarem com frequência quando volta. Não nos podemos esquecer que muitas vezes os próprios desenhos animados que a criança vê nesta idade morrem e depois já estão outra vez vivos. Assim, para uma criança desta idade, a morte é algo impessoal, reversível e temporário.

Entre os 5 e os 7 anos - As perguntas sobre a morte, geralmente, começam a surgir por volta dos 5 anos de idade, quando passam a compreender o conceito de tempo, no entanto ainda existe dificuldade em entender a morte como algo que acontece a todos, permanente e inevitável. Mesmo quando alguém próximo morre não entendem a morte como algo que lhes pode acontecer. 

A partir dos 7 anos - Começam a entender que o conceito temporal de morte é definitivo e irreversível. Têm noção de que todas as coisas vivas morrem, já é algo que vêem como mais pessoal.

Contar ou não contar? Como devemos falar da morte às crianças? 

Não queremos ver os pequenos a sofrer, a nossa tendência instintiva é protegê-los da dor e fazemo-lo muitas vezes, não contando a verdade, omitindo factos ou até mesmo inventado histórias para minimizar o sofrimento. A experiência, nestas situações, demonstra que há benefícios em a criança conhecer a verdade desde o inicio. Se a criança fizer questões, tente não fugir mas evite as respostas, “foi para o céu”, “está a dormir”, “está a descansar”, “está num sono eterno”, “foi-se embora”, uma vez que só vai servir para lhe criar medos de que um dia o pai ou a mãe não apareçam, ou mesmo de ter medo de ir dormir e não acordar. Diga sempre a verdade dando respostas breves e simples,  "quando alguém morre o corpo deixa de funcionar, não come, não dorme, mas também já não sente dores".


Devem as crianças ir ao funeral?

O funeral é um momento de despedida e por isso a criança deve ter oportunidade de ser questionada se quer ou não despedir-se de quem morreu. 

Deve-se pensar em como preparar e acolher a criança nestas circunstâncias explicando os rituais que envolve, de uma forma simples, para não ser um choque. No entanto, se a criança estiver assustada e não quiser ir, nunca se deve forçar. Mesmo assim é muito importante encontrar uma forma que a permita dizer adeus, por exemplo, acender uma vela, fazer um desenho, escrever um bilhete de despedida ou visitar a campa.

Quais as reacções da criança? 
É provável que exiba sentimentos de tristeza, culpa, raiva e ansiedade esporadicamente, por longos períodos e geralmente em momentos inesperados. A criança pode também regredir, tornar-se demasiado dependente ou simplesmente ficar muito activa porque não sabe lidar com a sua dor. Por vezes  pode “esquecer” que o familiar morreu ou persistir na crença de que ele ainda vive e isto é normal nas primeiras semanas após a morte.

Como devemos agir? 

É importante que deixe a criança decidir como faz o seu luto. Ela pode chorar ou não.
 As crianças pequenas geralmente tem dificuldade em conseguir recordar uma pessoa que tenha morrido e não ter estas memórias pode ser uma situação muito complicada e difícil para a criança, por isso uma fotografia pode trazer um grande conforto. Outro aspecto muito importante, é que mantenha as rotinas, quanto mais depressa o fizer melhor. As rotinas dão às crianças uma sensação de segurança depois de um acontecimento marcante.
 Se também está a sofrer, não esconda as suas emoções, pois ao fazê-lo só vai criar mais angústia à criança. Explique que os adultos por vezes precisam de chorar porque se sentem tristes, com saudades de quem morreu e que não há problema em fazê-lo. 
As crianças "apanham" facilmente as mudanças de humor e percebem que algo não está bem.

Existem sinais de alerta de que a criança não consegue processar o luto. Quais são? 
  • Um longo período de depressão, com perda de interesse em atividades e eventos do dia-a-dia; 
  • Dificuldades para dormir, perda do apetite ou medo prolongado de ficar sozinha; 
  • Agir como uma criança mais nova por muito tempo; 
  • Negar que o familiar tenha morrido; 
  • Imitar a pessoa morta o tempo todo; 
  • Falar repetidamente sobre ir ter com a pessoa morta, querer morrer; 
  • Isolar-se dos amigos; 
  • Queda súbita e importante do rendimento escolar ou recusar-se a ir à escola;
Estes sinais indicam que a ajuda de um profissional deve ser procurada.


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4 comentários:

  1. Adorei! posso "roubar" e colocar lá no blog com link para aqui? beijinho

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    1. Olá e obrigada! ;)
      Não precisa de "roubar" que "empresto" com muito gosto.
      Beijinhos

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    2. Muito bom, concordo plenamente e foi exactamente o que fiz quando a minha sogra morreu, embora tenha sido muito criticada, achei que o Martim já com 7 anos, deveria saber a verdade! Não quis ir ao funeral, mas conseguiu compreender muito melhor a tristeza do pai, sem se culpabilizar achando que teria feito alguma asneira e percebendo que a perda de alguém muito querido doi muito!
      Sempre fez muitas questões sobre a morte ( o que me preocupava imenso) e sempre tentámos ser verdadeiros com ele, assim, quando a avó morreu, percebeu que era o fim de um ciclo e mesmo triste, conseguiu perceber, sabendo que não tinha mais volta e aceitou bem, dentro dos possiveis. Mesmo hoje em dia quando a mais pequenina (tem agora 4 anos) pergunta por ela, ele faz questão de esplicar.... (embora muitos outros pais, amigos nossos, fiquem horrorizados da forma natural como ele se consegue expressar sobre o assunto) . O meu instinto disse-me para agir assim e não estou nada arrependida, não temos tabus em relação a esse assunto....
      Obrigado por me fazer sentir que agi da melhor forma!

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  2. A minha filha de seis anos ainda só conhece a versão soft. Digo-lhe que as pessoas morrem quando são velhinhas ou estão muito doentes e que vão para o céu. Sou incapaz de lhe falar em cemitérios, pois lembro-me, na sequência da morte da minha avó, de ter terror de ir para debaixo da terra... não lhe quero incutir esses medos, mas também não sei como agir.

    Por outro lado, acho importante que se explique às crianças quando um familiar está a passar por uma doença grave. A minha avó teve cancro e ninguém falou abertamente comigo sobre a doença, mas o ambiente em casa estava pesado e triste. Isso afetou-me muito, a ponto de ficar com muito medo de ficar doente...

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